Tanques, barragens e açudes secando, sisal murchando, pastagens ressecadas e poucos animais nas propriedades. Esse foi o cenário encontrado pela equipe do Calila Notícias na manhã desta terça-feira, 13, durante um percurso por comunidades rurais de Conceição do Coité e Retirolândia, no território do Sisal.
A reportagem partiu do bairro Terra Nova e seguiu para o povoado de Malhador. Entre Malhador e a região da Fazenda Peixe, a paisagem evidenciava os efeitos da estiagem, com reservatórios esvaziados e pouca vegetação disponível para alimentar os rebanhos.

Nos poucos locais onde havia gado, os animais dependiam do alimento colocado pelos criadores. Sem pastagem suficiente, os produtores precisam comprar ração e garantir água para as criações, despesas que, segundo os moradores entrevistados, muitas famílias já não conseguem manter.
A equipe passou também pelo povoado Caruaru e pelo distrito São João, onde encontrou um cenário semelhante. Ao longo de todo o percurso, foram observados apenas duas fazendas com presença de gado e onde tem sisal as folhas estão arriadas e amareladas.

A reportagem não presenciou nenhum animal morto pelo caminho, cena que era possível encontrar em outras estiagens. Desta vez, chamou a atenção a própria ausência de animais nas propriedades, uma observação que acompanha os relatos dos moradores sobre a redução das criações na região. ” Tem muitas propriedades nesta região que não existem mais animais e as quem tem os donos tem condições de alimentar e colocar água, por isso não se vê animais mortos como antigamente que praticamente em toda roça se via, mas hoje ta difrente”, afirmou o agricultor José Milton.

Em São João, o criador José Antônio Alves, de 68 anos, afirmou nunca ter vivenciado uma situação dessa maneira. Além da seca, quem mantém pequenos rebanhos de ovelhas enfrenta outro problema, o ataques de cães matando os animais e aumentando os prejuízos dos criadores, que já encontram dificuldades para garantir alimento e água.
Dunga anota as chuvas em um caderno e relata dez anos sem chuva para “fazer água”
Na Fazenda Manuel Pereira, a equipe encontrou Dorivaldo Ferreira Lopes, de 83 anos, conhecido como Dunga. Ele contou que costuma medir e anotar em um caderno todas as chuvas que ocorrem na propriedade.

Segundo seus registros, a última chuva na localidade ocorreu em fevereiro deste ano, quando foram acumulados 70 milímetros.
Dunga explicou que uma chuva nem sempre é suficiente para abastecer os reservatórios. “Há dez anos não ocorre naquela região uma chuva de grande volume, capaz de produzir enxurradas e encher tanques e açudes — o que os moradores chamam de chuva para “fazer água”.
Em Jitaí, seca também compromete o trabalho no campo
De Manuel Pereira, a reportagem seguiu para a comunidade quilombola de Jitaí, em Retirolândia. Em plena manhã, encontrou trabalhadores rurais sentados às portas de suas casas, sem atividades no campo, conforme os relatos colhidos no local.

José Ferreira dos Santos, conhecido como Neguinho, confirmou que poucas pessoas da região ainda possuem animais. Ele atribuiu a redução das criações à seca e também aos prejuízos provocados pelos ataques de cães contra as ovelhas.
Os depoimentos mostram que a estiagem afeta não apenas os rebanhos, mas também a rotina de trabalho e a renda das famílias rurais.
Açude de Maurício abastecia filas de carros-pipa
Na comunidade de Contador, em Retirolândia, a equipe visitou o Açude de Maurício. Segundo moradores, o reservatório chegou a secar pela primeira vez de que têm lembrança, outros sem muita certeza falaram em duas secas em 50 anos de construído.

Juvelino Matos dos Santos, de 42 anos, mora em Contador desde 2011 e afirmou nunca ter visto o açude seco antes desta estiagem. “Nunca vi ele seco. A primeira vez foi agora”, relatou.
Ele lembrou que o reservatório era um importante ponto de abastecimento para carros-pipa, que chegavam a formar filas para retirar água. “Não era um nem dois; eram dez, doze caminhões”, contou. Com o esvaziamento, segundo ele, essa alternativa ficou comprometida: “Hoje não tem onde pegar mais. É complicado”.

Juvelino não soube precisar quando o açude secou, mas afirmou que as chuvas posteriores não foram suficientes para enchê-lo novamente.
Morador lembra construção e limpeza do reservatório
Manuel Oliveira, de 81 anos, recordou a construção da barragem, que, conforme seu relato, ocorreu quando Adelidio Martins era prefeito de Retirolândia. Sem precisar a data, estimou que o reservatório tenha cerca de 50 anos.
Ele também lembrou intervenções feitas por outras administrações, citando a gestão de Adevaldo Martins. Segundo Manuel, as limpezas anteriores eram realizadas nas laterais, pois a barragem sempre conservava água.

Desta vez, com o esvaziamento do reservatório, a prefeitura, na atual gestão de Guene, que mora na comunidade, realizou uma limpeza completa e ampliou a barragem, conforme o relato do morador.
A pequena quantidade de água observada no centro do açude, segundo Manuel, vem de uma minação, uma infiltração natural do solo.
“Antes de ter água da Embasa, era o socorro da gente”
Também em Contador, Celina Maria de Jesus, de 79 anos, esposa do senhor Manuel, mãe de nove filhos, destacou a importância do Açude de Maurício para as famílias da comunidade. “Eu não tenho nem palavras para agradecer a Deus depois que esse açude foi feito, porque era um sofrimento”, afirmou.

Celina contou que buscou água muitas vezes no reservatório e lembrou que, antes do abastecimento pela Embasa, o açude era a principal alternativa da família.
Celina não soube recordar quando ocorreu a última chuva forte na comunidade. Disse que precipitações que abasteceram reservatórios em outros pontos da região não chegaram ao local com intensidade suficiente para “fazer água”.
Ao falar sobre as criações, contou que seu filho utiliza água da Embasa, armazenada em cisterna, para manter os animais. Questionada sobre o peso das despesas no orçamento, afirmou que quase nada sobra do dinheiro do mês.
Por que as chuvas estão escassas na região de Coité e Retirolândia?
O período do ano e as condições dos oceanos e da atmosfera ajudam a contextualizar a falta de chuva. Segundo o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), o centro-norte e o nordeste da Bahia atravessam, nesta época, a estação normalmente mais seca, com menor expectativa de precipitações.
Em comunicado divulgado em 8 de outubro, o órgão indicou predomínio de tempo seco até o início da segunda quinzena do mês, com possibilidade de chuvas rápidas e isoladas em algumas áreas, sem expectativa de volumes significativos.

O Inema também aponta a influência do El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico, que altera a circulação atmosférica e pode modificar a distribuição das chuvas. As condições do Oceano Atlântico e outros fatores atmosféricos também influenciam esse comportamento.
Essas informações ajudam a explicar o contexto climático atual, mas não constituem um diagnóstico específico da estiagem nas comunidades visitadas. O relato de Dunga sobre dez anos sem chuva suficiente para encher os reservatórios corresponde às observações e aos registros particulares que mantém.
Entre tanques vazios, sisal castigado e propriedades com poucos animais, o percurso realizado pelo Calila Notícias revelou as dificuldades de famílias que dependem da chuva para trabalhar, manter suas criações e garantir o sustento.
O que foi mostrado na zona rural de Coité e Retirolândia não é difrente de centenas de outras cidades do sertão baiano e nordestino.