A história de Capela do Alto Alegre, município localizado no território da Bacia do Jacuípe, na Bahia, tem uma ligação profunda com a religião católica. O próprio nome da cidade está relacionado à construção de uma capela, que se tornou referência para a formação do povoado. Entre os personagens mais importantes dessa história estão Joaquim Machado da Silva e Rosalina Gomes da Silva, casal que teve participação fundamental na formação da comunidade, quando a localidade ainda pertencia ao município de Riachão do Jacuípe.
Na região conhecida como Fazenda Desabafo, em Alto Alegre, o casal contribuiu para a construção da primeira capela, incluindo um altar destinado às celebrações religiosas. Um dos marcos da história religiosa local foi a realização da primeira missa, em 17 de abril de 1912.

A presença da capela foi tão importante para a identidade da comunidade que acabou contribuindo para a denominação Capela do Alto Alegre, nome preservado mesmo após a emancipação política do município, ocorrida em 19 de março de 1985.
Rosalina, uma católica fervorosa, foi sepultada dentro da igreja
Rosalina Gomes da Silva é lembrada como uma mulher de forte devoção à Igreja Católica, cuja influência religiosa marcou a história da comunidade. Sua ligação com o catolicismo era tão profunda que, segundo relatos históricos locais, quando faleceu, foi sepultada no interior da própria igreja.
Naquela época, sepultamentos dentro de templos religiosos eram associados a tradições antigas e, em determinadas circunstâncias, ao reconhecimento da importância de pessoas para a comunidade. Entretanto, a forte convicção religiosa de Rosalina também teria provocado conflitos com pessoas que professavam outras crenças, especialmente os evangélicos.

As divergências chegaram ao ambiente familiar. Um de seus filhos de criação, Cornélio Rodrigues dos Santos, seguia a religião evangélica, situação que, conforme a tradição oral, provocava desentendimentos religiosos.
Proibição de sepultamento de evangélica deu origem a outro cemitério
Um dos episódios mais marcantes dessa história está relacionado à morte da esposa do presbítero José Emídio da Cunha, conhecido como Zezinho de Calazans.
Segundo relatos históricos da comunidade, o sepultamento da mulher no cemitério existente teria sido impedido em razão de sua religião evangélica. A resistência é atribuída à influência religiosa de Rosalina, que não aceitava sepultamentos de evangélicos naquele espaço.

Diante da situação, surgiu a necessidade de criar um local onde os seguidores da fé protestante pudessem sepultar seus familiares.
Foi assim que nasceu o espaço conhecido popularmente como Cemitério dos Crentes, denominação que atravessou gerações e se tornou parte da história de Capela do Alto Alegre.
A criação desse segundo cemitério revela um período em que as diferenças religiosas não se limitavam às celebrações e aos templos, mas também interferiam em aspectos fundamentais da vida comunitária, incluindo o direito ao sepultamento.
Igreja Presbiteriana anuncia mudança de nome
Passadas várias gerações, a história do Cemitério dos Crentes ganha um novo capítulo. A Igreja Presbiteriana de Capela, responsável pela administração do espaço, divulgou um comunicado oficial à sociedade capelense informando que o antigo Cemitério dos Evangélicos passa a se chamar Cemitério Presbiteriano Macpela.

Segundo a instituição, o nome foi escolhido em referência ao capítulo 23 do livro de Gênesis, na Bíblia, que relata a aquisição, por Abraão, de um local para sepultar sua esposa Sara.
Macpela, portanto, representa uma referência bíblica relacionada ao sepultamento e à preservação da memória familiar. A nova denominação também reforça a identidade religiosa da instituição responsável pela administração do cemitério.
Realidade atual: cemitério também recebe pessoas que não são presbiterianas
Além da mudança de nome, o comunicado apresenta um esclarecimento importante sobre a utilização atual do espaço funerário. A Igreja Presbiteriana informa que pessoas que não sejam membros da congregação de Capela do Alto Alegre, nem de outras igrejas federadas à Igreja Presbiteriana do Brasil, também poderão sepultar seus entes queridos no cemitério.
Nesses casos, será necessário o pagamento de uma taxa administrativa, cujo valor deverá ser consultado diretamente na secretaria da Igreja Presbiteriana de Capela.
O documento não informa quando essa possibilidade passou a existir, mas deixa claro que essa é a orientação atualmente adotada pela administração.

O esclarecimento chama atenção quando comparado à história atribuída à origem do cemitério, que teria surgido justamente em consequência de restrições ao sepultamento de evangélicos no espaço funerário original.
É importante destacar que o comunicado trata da possibilidade de sepultamento de pessoas não vinculadas à Igreja Presbiteriana, sem estabelecer expressamente regras específicas para cada religião.
Do passado de separação religiosa à convivência dos dias atuais
A trajetória dos cemitérios de Capela do Alto Alegre mostra como a religião influenciou a formação da cidade e as relações entre seus moradores.
De um lado, a história de Joaquim Machado da Silva e Rosalina Gomes da Silva, personagens associados à construção da primeira capela e à origem do povoado.
Do outro, a história dos evangélicos que, diante de dificuldades para sepultar seus familiares, passaram a contar com um espaço próprio.
Hoje, o antigo Cemitério dos Crentes, administrado pela Igreja Presbiteriana, apresenta uma realidade diferente daquela descrita nos relatos sobre sua criação.
A mudança de nome para Cemitério Presbiteriano Macpela e a informação de que pessoas não pertencentes à denominação também podem ser sepultadas no local representam um novo capítulo dessa trajetória.
Dia de Finados também é momento de preservar a história
Neste período de Dia de Finados, quando familiares visitam os cemitérios para homenagear aqueles que partiram, a história de Capela do Alto Alegre chama atenção por uma particularidade: a origem de um de seus cemitérios está diretamente relacionada aos conflitos religiosos de outras gerações.
A história também permite compreender as transformações da sociedade, que passou por períodos de forte separação entre diferentes crenças e hoje convive com uma realidade religiosa mais diversificada.
