Conceição do Coité viveu três dias de celebração à capoeira, à cultura e à ancestralidade com a realização do 5º Encontro Internacional de Capoeira – “Deixa o Berimbau Falar”, entre sexta-feira (14) e domingo (16).
Promovido pela Escola da Capoeiragem, o evento reuniu mestres, professores, alunos, grupos e admiradores da capoeira de diversos municípios do Território do Sisal, além de representantes de outras regiões da Bahia, dos estados da Paraíba e Pernambuco e até do exterior.
A participação internacional teve como grande destaque o Mestre Samuca, que reside há 23 anos na Bélgica e esteve pela primeira vez em Conceição do Coité. Sua presença reforçou a proposta de intercâmbio cultural que marcou o encontro.

Três dias de programação
A programação começou na noite de sexta-feira, com uma roda de capoeira e prosa na Praça da Matriz, no centro de Conceição do Coité.
No sábado (15), as atividades foram concentradas no Centro Cultural, na Praça da Babilônia, onde aconteceu a formatura de graduados e mestrandos da Escola da Capoeiragem, sob a direção do Mestre Samuray.
Um dos momentos mais importantes da noite foi a graduação dos professores Emerson Santana Carneiro, o Mãozinha, de Conceição do Coité, e Wtemberg de Lima Martins, o Mola, de Retirolândia, que passaram à condição de mestrandos.
O encerramento aconteceu no domingo (16), com o 30º Batizado de Capoeira e troca de cordas, realizado na quadra poliesportiva do EMAP, no bairro dos Barreiros. A atividade marcou a culminância da programação de 2026.
Mestre Samuray comemora resultado
A Escola da Capoeiragem é liderada no Sertão baiano pelo Mestre Samuray, nome pelo qual é conhecido Robson Mascarenhas Miranda, natural de Cachoeira e radicado em Conceição do Coité desde o início da década de 1990.

Ao fazer uma avaliação da quinta edição, Samuray comemorou o resultado e destacou o alcance cultural e esportivo do encontro, embora tenha chamado atenção para a necessidade de maior apoio. “Na minha visão geral, enquanto coordenador da organização do evento, digo que foi de grande valor cultural e esportivo. O evento alcançou o objetivo. Porém, ainda falta mais apoio dos governantes e da sociedade de um modo em geral”, afirmou.

O mestre também falou sobre a graduação de Mola e Mãozinha e o significado das cores das cordas na caminhada dos capoeiristas até alcançar o grau de mestre. “Desejo de todo o meu coração aos futuros mestres de capoeira toda a felicidade do mundo. Tenho certeza que eles compreenderam a mensagem da passagem por cada cor, na vida da capoeira. Seremos eternamente aprendizes, na Escola da Capoeiragem e na vida”, destacou Samuray.
Mola: “Foi a capoeira que me educou”
O agora mestrando Mola, de Retirolândia, também considerou positivo o encontro, principalmente pela participação de representantes de várias cidades baianas, de outros estados e da Europa.
Ele apontou, porém, como aspecto negativo a ausência de representantes do poder público e o pouco apoio financeiro para a realização do projeto.

Ao falar da própria trajetória, Mola destacou o papel da capoeira na formação pessoal e defendeu maior participação das famílias, especialmente de pais, mães, crianças e adolescentes. “Praticamente quem me educou foi a capoeira, não frequentei faculdade. Foi a capoeira que me educou para ser cidadão que sou hoje”, afirmou.
Para o mestrando, a modalidade vai muito além da atividade esportiva.
“A capoeira, na verdade, não é só um esporte, ela é um pai, ela é uma mãe, uma escola. A capoeira educa, resgata, inclui, transforma socialmente seres humanos e constrói cidadania, pela arte e pela cultura”, disse Mola.
Mãozinha celebra nova etapa
Para Emerson Mãozinha, que além de arte-educador é graduado em História pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Campus XIV, alcançar o grau de mestrando representa realização, mas também aumento da responsabilidade. “O sentimento é de realização, de gratidão, de ter certeza de estar fazendo uma boa semeadura e que daqui para frente é um desafio ainda maior”, afirmou.

Mãozinha destacou que sua relação com a capoeira antecede a própria formação acadêmica. “A capoeira me fez professor muito antes de ter chegado à universidade”, disse.
A experiência acumulada como praticante e educador também chegou ao ambiente acadêmico. Segundo ele, sua própria vivência na capoeira, especialmente em comunidades periféricas e rurais de Conceição do Coité, serviu como fonte de pesquisa para seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em História.
“A capoeira é vida, é transformação. A roda da capoeira ensina a gente para a roda da vida”, resumiu o mestrando.
Participação feminina
A presença e o papel das mulheres na capoeira também foram destacados durante o encontro. Iradilma de Almeida Ramos, conhecida como Bonequinha, uma das integrantes da organização do projeto, lembrou a importância histórica das mulheres nas lutas sociais e na capoeira, citando como referência Dandara dos Palmares.

“O papel da mulher na capoeira é de fundamental importância na vida. Capoeira é saúde no corpo, na mente, na alma”, afirmou.
Ao avaliar a quinta edição, Bonequinha disse que o encontro superou os objetivos e manifestou a expectativa de que o projeto continue crescendo a cada ano.

Da Bélgica para o Sertão baiano
Uma das presenças mais festejadas desta edição foi a do Mestre Samuca, Samuel Ramos de Souza. Mineiro e morador da Bélgica há 23 anos, ele é fundador da Escola da Capoeiragem e desenvolve trabalho de difusão da capoeira na Europa.
Sua trajetória internacional inclui atuação e presença da capoeiragem em países como França, Irlanda, Itália, Polônia e Bélgica.

Em sua primeira participação no encontro em Conceição do Coité, Samuca falou sobre a capacidade da capoeira de ultrapassar fronteiras e revelou ter ficado impressionado com a energia encontrada no Sertão.
Praticante há mais de 50 anos, o mestre disse que continua se encantando com a modalidade. “Essa nossa capoeira encanta qualquer um, ela é maravilhosa. A capoeira me encanta até hoje. E eu, como praticante de capoeira há mais de 50 anos, sou como criança na capoeira”, afirmou.
“Aqui você encontra capoeira raiz”
Ao falar especificamente sobre a experiência de participar de um encontro no Sertão da Bahia, Mestre Samuca fez um dos depoimentos mais marcantes do evento. “A capoeira é resistente, ela é guerreira, ela é perseverante. Você vem para o Sertão e aqui você encontra capoeira raiz. E esta capoeira é a mesma capoeira que a gente ensina lá fora”, afirmou.

O mestre também disse ter encontrado em Conceição do Coité uma energia que não presenciava havia bastante tempo em uma roda. “Eu não sou daqui da Bahia, mas o baiano, ele é o capoeira, ele é especial. E aqui eu vi uma energia que há muito tempo eu não vejo numa roda de capoeira. Então vocês estão de parabéns”, declarou.
Segundo Samuca, apesar de conhecer diferentes lugares dentro e fora do Brasil, a experiência no Sertão chamou sua atenção. “Vocês abraçam e acolhem essa capoeira para o coração de uma forma especial. Essa nossa capoeira do Sertão é diferenciada”, concluiu.
Encontro busca se consolidar no calendário
Mais do que reunir praticantes, o “Deixa o Berimbau Falar” tem como proposta fortalecer a rede da capoeiragem, promover intercâmbio de conhecimentos e ampliar a circulação dessa manifestação cultural no Território do Sisal.
A organização considera que a quinta edição reforçou a consolidação do encontro no calendário cultural da região, tendo Conceição do Coité como sede e ponto de encontro entre a capoeira praticada no Sertão e aquela difundida em outras partes do Brasil e do mundo.

Com rodas, graduação, batizado, troca de cordas e intercâmbio entre diferentes gerações e lugares, os dias 14, 15 e 16 de agosto de 2026 ficam registrados na história do projeto.
O berimbau falou em Conceição do Coité — e, nesta quinta edição, seu som chegou de diferentes partes do Brasil e atravessou o Atlântico.



