“Cada criança tem o seu tempo” é uma das frases mais ouvidas por pais preocupados com a fala dos filhos. O ritmo individual existe, mas há parâmetros. Segundo a Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (SBFa), as primeiras palavras surgem entre 12 e 18 meses, e a chamada “explosão do vocabulário” costuma ocorrer entre 18 e 24 meses.
É por isso que o tempo pesa tanto. A linguagem não se desenvolve isolada, ela está ligada ao desenvolvimento cognitivo, social e emocional da criança. E os atrasos de linguagem podem persistir até a adolescência e a vida adulta, com risco de dificuldades sociais, emocionais e de aprendizagem. Intervir cedo é uma forma de prevenir esse efeito em cadeia.
A principal estratégia com respaldo científico é levar a família para dentro da terapia. Tatiane Chagas, fonoaudióloga especialista em Neurodesenvolvimento Infantil e Neurociência da Aprendizagem, e fundadora e CEO da Estímulos Desenvolvimento Infantil, explica que diversos estudos científicos apontam o impacto positivo do estímulo à comunicação em situações dia a dia.
“O envolvimento da família é parte do tratamento. Quando os pais aprendem a transformar o banho, a refeição e a brincadeira em oportunidades de comunicação, a criança pratica o que aprendeu na terapia todos os dias, e não só nos minutos da sessão”, acrescenta.
Dentro dessas rotinas, algumas técnicas aparecem com frequência como responder de forma contingente ao que a criança comunica, nomear o que ela olha ou faz, expandir suas produções e ler livros de maneira dialogada. A fonoaudióloga explica ainda que brincar e falar se desenvolvem juntos, e o faz de conta anda lado a lado com a capacidade de narrar. Por isso, a terapia costuma fazer uso de elementos lúdicos.
Fala e neurodivergência
Quando há Transtorno do Espectro Autista (TEA), a atenção ao desenvolvimento da linguagem se torna ainda mais importante. “Esperar ‘para ver se passa’ custa tempo, e tempo, nos primeiros anos, é o recurso mais precioso do desenvolvimento. A avaliação não rotula a criança, ela mostra do que ela precisa e como a família pode ajudar”, esclarece Tatiane Chagas.
Nos casos de apraxia de fala na infância, que é um transtorno motor de fala, a especialista cita métodos como DTTC, Prompt e Rest, validados internacionalmente, e o uso da comunicação aumentativa ou suplementar como apoio à terapia.
A escola também deve entrar no processo. A capacitação de professores e profissionais da educação permite que eles identifiquem os atrasos na linguagem e contribuam para o encaminhamento assertivo do tratamento.
Mas quando procurar ajuda? A fonoaudióloga orienta buscar profissional nos seguintes casos:
aos 2 anos, se a criança não fala ou fala muito pouco;
aos 4 anos, se as pessoas ainda têm dificuldade de entender a fala da criança;
diante de gagueira, sobretudo com esforço, tensão ou movimentos associados;
quando há pouco interesse por brinquedos, por outras crianças ou por apontar, olhar e responder ao ambiente.
Ela também indica avaliação em condições como síndromes genéticas, deficiência intelectual, alterações neurológicas e deficiências auditivas ou visuais, e reforça que a família deve procurar o fonoaudiólogo independentemente da causa do prejuízo à fala.
Procurar o fonoaudiólogo não significa antecipar um diagnóstico. Significa entender em que ponto a criança está e ter um caminho claro. Em muitos casos, os resultados da intervenção precoce são muito produtivos e rápidos. Tatiane Chagas afirma que o recado para os pais é simples: “observe, compare com os marcos esperados e, diante de dúvida, busque avaliação sem esperar. Cada criança tem o seu ritmo, mas ritmo é diferente de ausência de comunicação. Se a criança não usa palavras, gestos ou o olhar para se conectar, vale procurar um fonoaudiólogo sem esperar”.
Por: Monique Lobo ACComunicação
