A primeira noite da II FEITEC – Feira de Agricultura Familiar, Economia Solidária e Tecnologia, na sexta-feira (5), em Riachão do Jacuípe, foi marcada por uma experiência que uniu gastronomia, identidade cultural, empreendedorismo e desenvolvimento regional. A Noite de Harmonização de Queijos Artesanais colocou em evidência não apenas a qualidade dos produtos fabricados na Bacia do Jacuípe e território do sisal com destaque para São Domingos único representante, mas também o potencial do turismo rural como alternativa de geração de renda para as famílias do campo.
O evento promovido pelo Sindicato dos Produtores Rurais da Bacia do Jacuípe, sob a coordenação geral de Francisco Tadeu, presidente da entidade com apoio do Senar, Sebrae, Frijacuípe, Banco do Nordeste, e dos governos estadual e federal, acontece no antigo Parque de Vaquejada José Rufino, às margens da BR-324, próximo ao entroncamento para Serra Preta, reunindo produtores, técnicos, empresários, autoridades e visitantes interessados em conhecer experiências que transformam a produção artesanal em oportunidade de negócios.

Durante a programação, oito queijarias artesanais apresentaram produtos harmonizados com vinhos, espumantes, cervejas artesanais, cafés, chás e cachaças, numa demonstração da riqueza gastronômica produzida no território.
Os participantes ocuparam as mesas que receberam uma tábua com queijos númerados de 1 a 8. Era servida a bebida indicada para cada tipo de queijo, o número 1 por exemplo sugere o café para acompanar, o segundo foi servido um vinho, e assim os convidados puderam conhecer os sabores de todos que foram apresentados acompanhado com bebidas.

Fazenda centenária transforma produção de queijo em experiência turística
Mas os sabores foram apenas uma parte da história. A noite também mostrou como a produção de queijo está ajudando a impulsionar o turismo rural e a fortalecer a identidade da Caatinga. Entre os exemplos apresentados durante o evento, ganhou destaque a experiência desenvolvida na Fazenda Tanque Grande, localizada a poucos quilômetros da sede de Riachão do Jacuípe.
O produtor Jairo Tavares Júnior explicou que o turismo rural surge como uma resposta à crescente distância entre as pessoas e o meio rural. “Temos que trazer o pessoal da cidade para conhecer não apenas o produto, mas também a produção. Muitas crianças não sabem mais de onde vem o leite e como os alimentos são produzidos. O turismo rural aproxima as pessoas dessa realidade”, destacou.

Segundo ele, a proposta permite que os visitantes acompanhem toda a cadeia produtiva, desde a criação dos animais até a fabricação dos derivados do leite.
A Fazenda Tanque Grande possui uma história que atravessa gerações. As terras foram adquiridas por José Rufino Ribeiro de Lima, tataravô de Jairo, e permanecem na mesma família há mais de um século. Atualmente, o produtor representa a quinta geração à frente da propriedade.

Além da tradição familiar, a preservação da Caatinga é um dos diferenciais da fazenda. Jairo destaca que a riqueza da flora nativa influencia diretamente os sabores dos produtos produzidos na região. “A Caatinga é um dos biomas mais ricos e únicos do planeta. Toda essa diversidade de fauna e flora acaba refletindo nos sabores produzidos aqui”, afirmou.
Queijos e iogurtes transformam sabores da Caatinga em produtos premiados
Se o turismo rural foi um dos grandes destaques da noite, a valorização dos produtos originários da Caatinga também ganhou espaço especial durante a FEITEC.
O produtor Eduardo Emídio, do distrito de Barreiros, em Riachão do Jacuípe, apresentou produtos que carregam a identidade do semiárido baiano e ajudam a desconstruir preconceitos históricos relacionados ao que é produzido na região.

Segundo ele, o trabalho desenvolvido busca valorizar não apenas o leite e seus derivados, mas toda a riqueza cultural e ambiental da Caatinga. “Hoje a gente trabalha para manter a valorização do povo caatingueiro, da Caatinga e do que é produzido na nossa terra”, afirmou.
A propriedade desenvolve queijos, doces e iogurtes produzidos com ingredientes típicos do bioma, como licuri, umbu, mandacaru e palma. Um dos destaques é o iogurte produzido à base de mandacaru, experiência considerada pioneira e que ajuda a transformar elementos tradicionais do sertão em produtos de alto valor agregado.

Para Eduardo, assumir a identidade regional é fundamental para fortalecer o reconhecimento dos produtos. “Se eu, como produtor, não valorizar o produto como sendo da região e da Caatinga, eu mesmo estarei desvalorizando aquilo que produzo. Precisamos ter orgulho dessa identidade”, ressaltou.
Queijos da Bacia do Jacuípe conquistam medalhas nacionais e internacionais
A qualidade dos queijos artesanais produzidos na região foi destacada pelo analista técnico do SEBRAE, Valdemir Matos, responsável pela Oficina de Harmonização de Queijos com Bebidas Regionais. Segundo ele, a atividade foi criada para promover os produtos locais e aproximar consumidores e formadores de opinião da realidade dos produtores.
“O queijo artesanal é o protagonista dessa experiência. Queremos que mais pessoas conheçam esses produtos de altíssima qualidade e ajudem a divulgar o trabalho realizado pelos nossos queijeiros”, explicou.

Valdemir destacou que muitos dos produtores participantes vêm sendo acompanhados pelo SEBRAE desde 2022, por meio de capacitações voltadas para a melhoria da qualidade e do posicionamento de mercado. O resultado desse trabalho já aparece nas premiações conquistadas pelos produtores da região.
Os queijos da Bacia do Jacuípe participam regularmente de importantes concursos especializados, entre eles o Prêmio Queijo Brasil e o Mundial do Queijo, considerado uma das mais importantes competições do setor.
“A cada dois anos acontece o Mundial do Queijo. Quando não é realizado no Brasil, acontece na França. E os produtores daqui participam regularmente, conquistando medalhas e reconhecimento para os seus produtos”, destacou.

As premiações funcionam como um importante selo de qualidade, abrindo portas para novos mercados e fortalecendo a imagem dos produtos produzidos no semiárido baiano.
Desenvolvimento que nasce da identidade do território
Ao reunir gastronomia, turismo, preservação ambiental, inovação e agricultura familiar, a primeira noite da FEITEC mostrou que a Bacia do Jacuípe vive um momento especial de valorização de suas potencialidades.
Mais do que produzir alimentos de qualidade, agricultores e agroindústrias da região estão transformando histórias, tradições e riquezas da Caatinga em experiências capazes de gerar renda, atrair visitantes e fortalecer o desenvolvimento regional.

A FEITEC teve início na sexta-feira (5) e segue até domingo (7), consolidando-se como uma importante vitrine para os produtos da agricultura familiar e para os empreendimentos que ajudam a construir uma nova imagem do semiárido baiano: uma região de inovação, excelência produtiva e orgulho de suas origens.
Francisco Tadeu celebra sucesso da abertura da II FEITEC e destaca potencial do semiárido baiano na produção de queijos premiados
Ao avaliar o primeiro dia do evento, o coordenador da feira, Francisco Tadeu, destacou a importância de iniciar o evento com uma atividade tão importante: “Nosso objetivo era exatamente esse: fazer da FEITEC um exemplo capaz de cativar os agentes públicos, aqueles que ainda não se sensibilizaram com essa pauta, além da iniciativa privada, do mercado consumidor e da própria mídia, para que todos compreendam que temos potencial para produzir tudo o que quisermos aqui no semiárido”, afirmou.
Tadeu ressaltou que o semiárido nordestino, considerado o mais populoso do mundo, possui riquezas muitas vezes desconhecidas pela própria população. Como exemplo, citou a qualidade dos queijos produzidos na região, apresentados durante uma degustação especial realizada na abertura da feira.

“Mostramos aqui queijos que não perdem em nada para produtos da França, da Suíça ou de qualquer outra região tradicional do Brasil. Além disso, temos um enorme potencial leiteiro que precisa ser valorizado”, destacou.
Durante a programação, foram degustados oito tipos de queijos artesanais. O coordenador explicou que a seleção foi criteriosa e reuniu apenas produtos já reconhecidos por premiações estaduais, nacionais e até internacionais.

“Esses oito produtos não representam toda a produção regional. Fizemos questão de trazer apenas queijos premiados, mas cada uma das queijarias participantes possui vários outros produtos igualmente reconhecidos pela qualidade”, explicou.
Sequencia da programação
Copa de Marcha
Também no sábado acontece a Copa de Marcha – Estilo Poeirão, atração que alia tradição, desempenho e forte mobilização popular. Com grande apelo visual e cultural, a prova fortalece a presença do segmento equestre dentro da feira e amplia o alcance do evento junto aos meios de comunicação e ao público visitante.
2º PECGEN reúne genética de elite
Neste sábado (6), às 13h, a Arena Show sediará o 2º PECGEN – Pecuária com Genética, considerado um dos pontos altos da feira. A programação contará com leilão de animais de elite, com destaque para exemplares da raça Nelore e gado leiteiro de alta produção, evidenciando os avanços da pecuária regional em direção a rebanhos mais produtivos, competitivos e tecnificados.
Mais de 50 expositores e mostra tecnológica
A II FEITEC conta com mais de 50 expositores da agricultura familiar e do artesanato regional, além de estandes empresariais e uma mostra de tecnologia desenvolvida com apoio do SENAR e de instituições de ensino superior.
A proposta é integrar produção, empreendedorismo, capacitação e inovação aplicada, criando um ambiente favorável para geração de negócios, troca de experiências e fortalecimento das relações institucionais.
FEITEC Escola e minicursos ampliam acesso ao conhecimento
A programação técnica terá como um dos pilares a FEITEC Escola e a realização de minicursos voltados aos desafios e oportunidades do campo no semiárido.
Entre os temas abordados estão:
- Inovação e transformação digital, com foco no uso da inteligência artificial na pecuária;
- Crédito rural e acesso ao financiamento para expansão das atividades produtivas;
- Apicultura como alternativa de geração de renda e fortalecimento da bioeconomia;
- Sustentabilidade, incluindo produção de húmus de minhoca, manejo racional e importância das abelhas nos sistemas produtivos;
- Leite A2A2, apontado como uma das inovações promissoras para agregação de valor à cadeia leiteira regional.
Segundo a organização, a grade de conhecimento foi planejada para aproximar produtores, estudantes, pesquisadores e instituições, fortalecendo a capacidade do território de responder de forma competitiva e sustentável às demandas do agro contemporâneo.
Cultura também faz parte da programação
Além das atividades técnicas e comerciais, a feira investe na valorização da identidade cultural da região. A programação contará com apresentações musicais durante as noites e trios de sanfoneiros ao longo do dia, promovendo integração entre negócios, convivência e cultura popular.
A proposta é transformar a FEITEC em um ambiente de grande circulação e permanência de público, associando a força do agronegócio à riqueza cultural do território da Bacia do Jacuípe.



