Os possíveis efeitos das chamadas canetas emagrecedoras, da classe dos medicamentos GLP-1, estão entre os assuntos que mais despertam a atenção de quem busca informações sobre o tratamento nas redes sociais. Um levantamento realizado pela Winnin, plataforma de inteligência cultural movida por inteligência artificial, analisou mais de 233 mil vídeos em inglês, espanhol e português publicados no Instagram, YouTube, TikTok, Facebook e Twitch.
A análise mostrou que, entre os conteúdos relacionados aos efeitos colaterais das GLP-1, os que abordam falta de energia e mau hálito foram os mais visualizados ao longo de um ano. Segundo Gian Martinez, CEO da Winnin, o comportamento de quem acompanha esse tipo de conteúdo ajuda a explicar por que as visualizações são um indicador relevante.
“No contexto das GLP-1, assistir é uma maneira mais segura de consumir conteúdo, sem o risco de expor vulnerabilidades. É por isso que, neste caso, faz mais sentido analisar as visualizações do que as interações, como curtidas, comentários e compartilhamentos, nos vídeos, para entender o comportamento das pessoas”, explica.
Perda de massa muscular também preocupa
Logo depois dos conteúdos sobre falta de energia e mau hálito, aparecem entre os temas mais visualizados aqueles relacionados ao envelhecimento da pele, perda de colágeno, preservação muscular e hipertrofia. Para Guilherme Moscardi, gerente de operações da Ultra Academia e especialista em longevidade, a popularização das canetas aumenta também a necessidade de discutir não apenas quanto peso é perdido, mas qual é a qualidade desse emagrecimento.
“Com o avanço das canetas emagrecedoras, cresce também a necessidade de discutir a qualidade da perda de peso. Quando uma pessoa emagrece de forma muito rápida, existe o risco de perder não apenas gordura, mas também massa muscular, o que pode trazer impactos importantes para a saúde. A redução da musculatura está associada à queda do metabolismo basal, perda de força, maior risco de lesões e dificuldades para manter os resultados no longo prazo”, explica.
Entre pessoas mais velhas, a preocupação é ainda maior, segundo o especialista, porque a perda de massa muscular pode acelerar quadros de sarcopenia. “Por isso, o treinamento de força, aliado a uma ingestão adequada de proteínas e ao acompanhamento profissional, tem papel fundamental durante o emagrecimento. O objetivo não deve ser apenas reduzir o peso na balança, mas promover uma perda de gordura que preserve ao máximo a massa muscular e a funcionalidade do corpo”, afirma.
Efeitos emocionais também despertam interesse
Os vídeos sobre os efeitos psicológicos e emocionais associados às GLP-1 também estão entre os mais assistidos, assim como conteúdos relacionados aos padrões de beleza. A psiquiatra Carla Moura Weinstein explica que os efeitos emocionais podem variar de acordo com a relação que cada pessoa já possui com o próprio corpo, a alimentação e o peso.
“O emagrecimento pode melhorar a autoestima e a disposição, além de reduzir o sofrimento ligado ao estigma da obesidade. Também é comum a diminuição da preocupação constante com a comida e da sensação de luta permanente contra a fome, o que pode trazer alívio emocional significativo. Por outro lado, a perda de peso não garante melhora da imagem corporal. Em alguns casos, a percepção de si não acompanha a mudança física, e a insatisfação permanece”, explica.
Para a especialista, pessoas com histórico de transtornos alimentares, compulsão, ansiedade ou depressão precisam de atenção especial durante o tratamento.
“O peso corporal envolve muito mais do que saúde, pois ele impacta a autoestima, o pertencimento e a comparação social. As redes sociais pioram isso ao expor constantemente corpos, transformações e ‘antes e depois’. As canetas adicionam a ideia de uma mudança rápida e acessível, o que aumenta ainda mais o interesse por elas. Mas o problema é que esse tipo de conteúdo raramente mostra o processo completo de relação com a comida, saúde mental, acompanhamento médico, efeitos adversos e o que acontece após o fim do tratamento”, alerta Carla.
Outros efeitos também aparecem nas buscas
No fim da lista dos assuntos que mais despertam interesse estão temas como perda de volume facial, controle de cabelo, efeitos no sistema digestivo e possibilidade de efeito rebote. O estudo da Winnin também identificou um crescimento expressivo da comunidade que compartilha experiências sobre o tratamento. O volume de vídeos utilizando a hashtag #GLP1Community aumentou 96% nos últimos três anos.
O público interessado no tema também é mais diverso do que pode parecer. Homens representam 31,8% da audiência, ou aproximadamente uma em cada três pessoas que acompanham esse tipo de conteúdo. A faixa etária de 25 a 34 anos é a que demonstra maior interesse pelo assunto. Entretanto, o levantamento também identificou adolescentes de 13 a 17 anos pesquisando e consumindo conteúdos relacionados às GLP-1.
A discussão cresceu especialmente em alguns países. No último ano, houve aumento expressivo na relevância dos análogos de GLP-1 no México (+343,9%), Índia (+343,9%), Brasil (+209,8%) e França (+205,8%).
Náusea leva pacientes a buscar alternativas para aliviar desconforto
Entre os efeitos gastrointestinais mais comuns associados aos medicamentos da classe GLP-1 está a náusea. Um dos fatores envolvidos é o fato de esses medicamentos retardarem o esvaziamento do estômago, fazendo com que os alimentos permaneçam por mais tempo no trato digestivo. A sensação de enjoo aparece com frequência, principalmente durante o período de aumento das doses. Segundo a pediatra, homeopata e especialista em medicina integrativa, Márcia Varejão, algumas medidas podem ajudar a reduzir o desconforto em quadros leves.
“Quando o esvaziamento gástrico fica mais lento, é comum surgir sensação de estômago cheio, desconforto e enjoo. Em quadros leves, antes de simplesmente acrescentar mais um medicamento à rotina, podemos olhar para estratégias de menor intervenção, como refeições menores, hidratação adequada, redução de alimentos muito gordurosos, técnicas de respiração e outras práticas integrativas. A ideia não é substituir um tratamento necessário, mas evitar uma carga medicamentosa adicional quando ajustes simples podem contribuir para o bem-estar”, explica.
A homeopatia também aparece entre as alternativas complementares procuradas por alguns pacientes. Entre os produtos disponíveis no mercado está o Cocculine, da Boiron, medicamento homeopático indicado como auxiliar no tratamento de náuseas. “Na medicina integrativa, o objetivo é ampliar as ferramentas de cuidado e individualizar a abordagem. Se a náusea é intensa, persiste ou começa a comprometer a alimentação e a hidratação, é fundamental procurar o médico e investigar o quadro”, reforça Márcia.
Fonte: Correio



