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Ciúme não é cuidado: psicóloga explica como diferenciar afeto de violência emocional

Por Redação CN
11 de junho de 2026
Ciúme não é cuidado: psicóloga explica como diferenciar afeto de violência emocional
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Em meio às celebrações do Dia dos Namorados, cresce o alerta de especialistas sobre a romantização da violência e o aumento dos casos de agressões contra mulheres no Brasil. Presentes, declarações de amor e gestos afetuosos muitas vezes convivem com comportamentos de controle, ciúme excessivo e manipulação emocional, sinais que passam despercebidos e são confundidos com demonstrações de carinho. A data, marcada pela valorização das relações afetivas, se torna também uma oportunidade para discutir limites e prevenção à violência psicológica, física e moral.

A psicóloga Carol França afirma que datas como o Dia dos Namorados costumam reforçar narrativas idealizadas do amor romântico, o que pode dificultar a identificação de comportamentos abusivos. Ela alerta para alguns comportamentos e crenças propagados ao longo do tempo.

“Fomos ensinados de que o amor verdadeiro precisa ser dramático, doloroso e que quem ama ‘se anula’ pelo outro. Crenças e valores culturais influenciam a forma como as pessoas interpretam os relacionamentos, sendo disseminada a ideia, por exemplo, de que o ciúme doentio é ‘excesso de zelo’ e que a possessividade é ‘intensidade de uma paixão’. A data do Dia dos Namorados cria uma cortina de fumaça e, muitas vezes, gestos invasivos e controladores ganham uma embalagem bonita de presente e passam despercebidos como se fossem uma grande prova de amor”, afirmou.

Comportamentos que devemos acender o alerta

“Love Bombing” (Bombardeio de amor): aquela pressa desmedida para namorar, morar junto ou fazer juras eternas na primeira semana. Parece um conto de fadas, mas costuma ser uma tática para acelerar sua dependência e te isolar do mundo antes que você perceba os defeitos dele.

Aparecer sem avisar “por saudade”: ele surge no seu trabalho, na sua faculdade ou no seu rolê com as amigas. Parece surpresa romântica, mas muitas vezes é uma ferramenta de fiscalização para checar com quem e onde você está.

Exigir senhas por “transparência”: o discurso de que “quem não deve, não teme” destrói um pilar psicológico fundamental: a sua individualidade. Confiança não significa invasão de privacidade.

O “efeito compensação”: te dar um presente caríssimo ou uma viagem surpresa logo após uma crise de grosseria ou um ataque de ciúmes. O objeto material entra para apagar a violência psicológica.

O impacto do discurso social na romantização do ciúme e da posse

Carol França, que é coordenadora do curso de Psicologia da Estácio, destaca o impacto do discurso social na romantização de comportamentos como ciúmes e posse. Ela explica que a Psicologia Social mostra que nós repetimos aquilo que consumimos. A psicóloga também fala sobre a influência das redes sociais.

“Olhe para as músicas mais tocadas nas plataformas, os filmes de romance e as séries populares: quase sempre, o homem que quebra um bar, que briga na balada ou que proíbe a parceira de sair é retratado como o apaixonado obstinado. As redes sociais também criaram a cultura do ‘shippar’ casais claramente tóxicos. Quando a sociedade valida o ciúme como o ‘tempero da relação’, ela normaliza a violência. Passamos a acreditar que uma relação sem desconfiança e posse é uma relação fria, o que é uma mentira perigosa.”

Sinais psicológicos de que um relacionamento pode estar caminhando para a violência

Carol França lembra que a violência física raramente acontece no primeiro dia. Segundo ela, a violência sempre é precedida por uma erosão psicológica silenciosa. Os primeiros sinais que a mulher sente são:

“Pisar em ovos”: você começa a medir cada palavra, a roupa que vai usar e a piada que vai fazer com medo da reação, do silêncio punitivo ou do mau-humor dele.

O humor camaleão: ele é um príncipe na frente dos seus amigos e um monstro quando vocês estão entre quatro paredes.

Invalidação disfarçada de piada: “Você está gorda”, “Essa roupa está ridícula”, “Você é burra”, seguidos por um “Nossa, como você é dramática, era brincadeira”. Isso se chama gaslighting, uma manipulação que faz você duvidar da sua própria inteligência e sanidade.

Isolamento sutil: ele não te proíbe de ver suas amigas, mas fala mal de todas elas até que você, por cansaço, decida parar de sair para não arrumar briga.

Como diferenciar cuidado de controle?

Essa é a dúvida que mais chega aos consultórios de psicologia, segundo afirma a especialista, que deixou uma dica: “A regra de ouro para diferenciar os dois está em duas palavras: Autonomia e Liberdade. O cuidado liberta; quem cuida quer ver o outro crescer, voar e ser feliz. O cuidado traz paz, calmaria e validação. O controle sufoca; quem controla quer ter o mapa dos seus passos. O controle gera ansiedade, culpa e medo. No controle, você sente que está perdendo as rédeas da sua própria vida.”

Segundo a especialista, a romantização da violência causa impactos profundos na autoestima e na autonomia das mulheres. “Elas entram em um estado de indefesa aprendida. Acreditam que não podem sair, que ninguém vai acreditar nelas ou que a culpa é delas. É uma erosão emocional contínua”, observa.

Diante desse cenário, o papel da rede de apoio torna-se essencial. A psicóloga orienta que familiares e amigos devem agir com empatia e acolhimento. “Julgar ou pressionar só isola ainda mais. O correto é oferecer escuta, proteção e caminhos práticos. A mulher precisa saber que não está sozinha, independentemente de quantas vezes retorne ao relacionamento. Ofereça apoio e oriente-a a buscar psicoterapia e os canais de apoio específicos, como o Ligue 180”, afirma Carol França.

Por: Daniela Cardoso / Assessoria Estácio Feira de Santana

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