A expectativa para mais um jogo decisivo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo promete prender milhões de torcedores diante da televisão neste domingo (5), às 17h, quando o Brasil enfrenta a Noruega em uma partida eliminatória. Em um país onde o futebol é paixão nacional, a tensão faz parte da torcida. Mas, para quem já convive com fatores de risco cardiovasculares, a emoção também exige atenção.
O alerta ganha ainda mais importância após dois episódios recentes. Em Feira de Santana, um pastor e professor de 66 anos morreu após sofrer um infarto enquanto assistia ao confronto entre Brasil e Japão. Segundo familiares, ele já vinha sentindo dores no peito dias antes, mas adiou a procura por atendimento médico. Em Goiás, um torcedor de 60 anos também morreu depois de sofrer uma parada cardiorrespiratória durante a partida da Seleção.

Embora assistir a um jogo de futebol não provoque, por si só, um infarto, a descarga de adrenalina provocada por momentos de forte emoção pode funcionar como gatilho para pessoas que já apresentam predisposição ou doenças cardiovasculares, é o que diz o cardiologista André Guimarães, em entrevista ao Acorda Cidade, site parceiro do Calila.
“O fato de a gente se emocionar pode desencadear diversas alterações no nosso corpo. Essas alterações, relacionadas principalmente às liberações adrenérgicas, podem fazer com que a pressão suba e, em pacientes que já têm uma predisposição, isso pode ocasionar desde um mal-estar até eventos cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral”, explicou.
Emoção não é a única vilã
Estudos reforçam que partidas decisivas realmente podem aumentar o número de ocorrências cardíacas.
Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), publicada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, mostrou que as internações por infarto aumentam, em média, 9% durante períodos de Copa do Mundo. Nos dias em que a Seleção Brasileira entra em campo, esse crescimento pode chegar a 16%.
Os pesquisadores, no entanto, destacam que a emoção costuma se somar a outros fatores bastante comuns durante os jogos: consumo exagerado de bebidas alcoólicas, alimentação rica em gordura e sal, noites mal dormidas, tabagismo e estresse.
Para André Guimarães, é justamente essa combinação que merece atenção. “A gente tem fatores modificáveis e não modificáveis. O envelhecimento e a genética não conseguimos mudar. Mas pressão alta, diabetes, estresse, cigarro, falta de atividade física e alimentação inadequada são fatores que podem levar ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares”, pontuou.

Nem toda dor no peito é infarto, mas nenhuma deve ser ignorada
Um dos maiores erros, segundo o especialista, é minimizar sintomas que podem indicar um problema no coração.
Ele explica que dores no peito podem ter diferentes causas, como problemas musculares, pulmonares ou até doenças do esôfago. Ainda assim, quando a origem é cardíaca, o quadro pode estar relacionado à obstrução das artérias coronárias.
“Das doenças cardiovasculares, a que mais causa dor no coração é a obstrução das artérias coronárias. Quando essas artérias se fecham, podem ocasionar um infarto.”
Além da dor ou pressão no peito, sintomas como falta de ar, suor frio, tontura, desmaio, palpitações persistentes e mal-estar intenso precisam ser avaliados imediatamente. A orientação é não esperar o fim da partida para procurar atendimento.
Check-up pode evitar problemas
Outro ponto destacado pelo cardiologista é a importância da prevenção. Segundo ele, pessoas a partir dos 40 ou 45 anos já devem realizar acompanhamento com um cardiologista, principalmente quem possui histórico familiar de doenças cardíacas.
“Quem já tem um pai ou uma mãe que teve problema cardíaco deve procurar o cardiologista de forma mais precoce. A partir da avaliação clínica, serão definidos os exames necessários para cada paciente.”
O médico também pontou sobre casos de infartos em pessoas jovens que utilizam medicamentos para ganho de massa muscular sem orientação médica.
“Muito cuidado, principalmente com a população mais jovem, com a utilização dessas drogas com pensamento cosmético. Elas vêm levando a processos inflamatórios nas artérias e pacientes jovens estão infartando por uso irregular dessas medicações.”
Como torcer sem descuidar da saúde
Para quem pretende acompanhar Brasil x Noruega no domingo, o especialista afirma que não é preciso abrir mão da torcida, mas alguns cuidados fazem diferença.
Pacientes que usam medicamentos de forma contínua não devem interromper o tratamento, é importante evitar exageros no consumo de álcool e de alimentos gordurosos e manter a hidratação.
“É difícil tirar um pouco da emoção. Nós somos brasileiros, o futebol é o esporte número um do país. A gente deve torcer, mas torcer de forma comedida. Não vale a pena um infarto nosso em função do pessoal lá. A gente tem que torcer com responsabilidade”, finaliza.



